O adeus da velha infância

Esses dias de quarentena as pessoas têm feito coisas que não faziam antes. Muitos estão em casa de home office, outros perderam o emprego, alguns são autônomos e estamos todos no mesmo barco. Não temos mais entretenimento fora de casa. Os shows estão proibidos e eu nem sei se eles voltaram depois dessa zorra que estamos vivemos. Os shoppings com meu amado cinema estão fechados, e isso mostrou que o streaming veio pra ficar. Eu poderia ficar aqui enumerando uma série de coisas, mas convenhamos, ninguém liga. O foco do meu texto é outro.

Ando vendo uma série de adultos barbados empinando pipa. Eles estão certos e jamais iria criticá-los. Mas isso me lembrou de uma coisa, praticamente um ritual que fiz alguns anos atrás.

Quando era criança, adorava brincar na rua. Tinha vários amigos e a vida era boa. A internet inexistia então era isso ou nada. Sempre gostei muito de duas coisas: pipa e futebol de botão.

Quase morri várias vezes por causa de pipa. Já me envolvi em discussões, falei coisas erradas e machuquei os dedos. Com o futebol de botão eu sempre tive uma relação estranha. Ganhei meu campo da minha tia, sempre tive vários times e jogava quase sempre sozinho. Era ótimo.

Com o tempo eu esqueci o campo e os times. A tábua virou apenas um pedaço de madeira que minha mãe usava para prender o cachorro em casa, e os times foram para um saco e talvez estejam até hoje no meu guarda roupa. Agora com a pipa a relação é um pouco diferente.

Aos 17 anos eu comecei a trabalhar e estudar igual doido. Não tinha tempo para nada. Era um saco. Sempre que podia eu colocava um pipa no alto pra me divertir uns minutos. Sempre foi muito bom. Mas um belo dia eu cansei. Estava prestes a completar 18 anos. Tinha que virar adulto.

Foi então que numa tarde de domingo, Deus sabe qual mês, eu coloquei meu pipa no alto. O vento estava para cima, em direção ao Morro Grande. Era horrível empinar naquela direção. Então eu fiquei brincando com meu pipa um pouco, via ele indo de um lado para o outro, era hipnotizante. Comecei a descarregar a minha lata. Mandei ele muito, mas muito longe. Deixei o mais alto possível. Fiquei 5 minutos olhando para ele ali. Era como se lembrasse de uma infância há muito esquecida.

Todos os pensamentos que tinha ali já foram esquecidos faz tempo. A palavra que dita a minha vida é oblivion, que significa esquecimento. Naquele instante eu ia deixar de ser um moleque e me tornar um adulto. Diziam que quando descarregávamos toda a lata de linha podíamos batizar nossos pipa. Assim o fiz, mas não me lembro o nome. Como último ato naquele momento, eu quebrei a linha e deixei meu pipa recém batizado ir embora e nunca mais empinei na vida. Se eu puder batizar aquele pipa daquele momento de momento de novo, eu o chamaria de infância, já que foi ali que tudo mudou.

Muitos anos se passaram. Não me arrependo de nada do que fiz na vida, só tenho a agradecer. A vida não é, nunca foi e nunca será fácil, mas seguimos em frente. Um dia tudo vai dar certo. Basta acreditar e nunca desistir. Um dia, quem sabe, irei empinar um pipa com meu filho. Mas até lá, irei somente olhar para os céus e apreciar o baile que aqueles pedaços de papel nos proporcionam nos céus da cidade.

Um cara perdido por aí que faz um monte de coisas e ao mesmo tempo não faz nada.

Um cara perdido por aí que faz um monte de coisas e ao mesmo tempo não faz nada.